domingo, 22 de maio de 2016

UM HOMEM ESTRANHO NO MUTIRÃO.

                                           

                                             
Em tempos antigos os homens que lidavam na roça, os camponeses de um modo geral e de serviços diversos também eram muitos unidos no jeito de lidarem com as tarefas. O mutirão para quem não sabe, é uma modalidade de ajuda mutua, isto é, muitos para ajudar um. Assim, um roceiro ou camponês como queiram, estava em apuros com sua roça invadida pelo mato e que sozinho não daria conta da tarefa, corria o risco de sua lavoura ser aniquilada pelas ervas daninhas e prejudicar sua colheita, ou em outro serviço este ficar atrasado em relação ao tempo de ser preparado no tempo certo. Então um destes camponeses faria um roçado grande mas como o tempo urge, resolveu convidar seus amigos e vizinhos para dar-lhe uma demão, uma força na longa tarefa. Saiu de casa em casa deles num final de semana destes combinando o dia  que contaria com a boa vontade de todos, queria realizar o trabalho em dois dias, sexta-feira e sábado da outra semana. Chegando em casa todo feliz com a recepção que a vizinhança e amigos lhe deram tratou de providenciar o necessário para o evento, claro que seria um evento, pois no final daria uma brincadeira dançante para todos os seus familiares e convidados  independente de terem ou não ajudado no serviço. A tarefa estaria terminada e agora vamos nos divertir, bezerro gordo abatido, ou um capado cevado, peru, frango doces e outras iguarias. A festinha se estenderia até a madrugada de domingo. Cantoria, namoro para as moças e rapazes no bailinho familiar, namorarem a beça. Jogos de truco ou outro para os mais velhos se divertirem caso estes não quisessem dançar. Era comum naquela época muito respeito á todos pois tudo eram família, compadres, comadres, padrinhos e afilhados, as vezes rezavam até um terço antes da função iniciar. Bons tempos aqueles, que não voltam mais, nada de contendas ou brigas apesar do mutireiro distribuir bebidas diversas ao povo, ao que  fazia parte daquela coisa tão comum entre os povos daquela comunidade. Ninguém "enchia a cara" para ficar dando trabalho aos outros. Então este amigo nosso organizou tudo com o maior carinho e apreço com seus familiares. Viria de longe o sanfoneiro, pandeirista, solista de violão e cavaquinho moços e moças de outras bandas. A expectativa era muito animadora, carramanchão pronto, recrutavam bancos de quase toda a vizinhança, que chegariam no horário combinado. Os donos da casa na sexta-feira levantaram de madrugada, prepararam o almoço numa baita mesa deste tamanho embaixo do carramanchão, potes de água, garrafas e litros de bebidas para os participantes do mutirão comerem e beberem logo cedinho e irem para o trabalho de papo-cheio, as bebidas eram para os homens rebaterem o orvalho que iriam enfrentarem, o almoço seria lá pelas doze horas ou mais. O almoço iria no eito para não terem que ficarem indo e vindo, depois a janta lá pelas dezenove horas quando todos voltasse de suas casa já tomado banhos da labuta daquele dia. No sábado cedinho tudo se repetiria, trabalhariam até as três horas da tarde e fim de serviço. Caso terminassem antes era melhor ainda. Cada um para sua casa e logo mais á noitinha retornarem para  jantar e sambarem até mais tarde. Tudo programado e em harmonia. Mas naquela manhã conforme combinado e esperado, não se sabe porque o povo não compareceu, nenhum dos convidados para a tarefa, nenhum sequer. E agora? O dono da casa e seus familiares ficaram apurados, o que será que aconteceu? Porque não vieram? Os vizinhos são pontuais! Pessoas de elevada estima e consideração de uns para com os outros? Como fizeram isso? E agora o que faremos com esta enorme quantidade de comidas prontas, dava pena ter que jogar fora, se não houvesse ninguém para ajudar a comê-las. Distribuiria aos vizinhos mais próximos, era o que restava fazer.  Perguntas sem respostas, ninguém sabia dizer por que isso aconteceu! Enquanto espremiam os miolos para descobrir o porquê daquele desarranjo naquilo que dariam tão certo, apareceu lá um sujeito desconhecido com uma foice nas costas! Desconhecido mesmo, ninguém dali o tinha visto em lugar nenhum. Falou bom dia para o nosso mutireiro muito alegre e descontraído, dizendo que tinha vindo dar uma "Mãozinha" no seu mutirão. O dono da casa agradeceu a sua cooperação, dizendo: Os amigos falharam todos, estamos só nos dois sozinhos, muito cortês lhe convidou para comerem e seguir para o roçado, mas o recém-chegado dispensou a oferta dizendo mais tarde a gente vem comer, vamos ver primeiro o seu serviço. Saíram os dois conversando caminho a fora levando somente uma cabaça de água. Então vamos começar amigo disse-lhe o patrão. Sapecaram a foice no mato só se via arbustos caindo para todos os lados e os dois conversando alegres um ao lado do outro correndo o eito. Nossa, nunca ninguém tinha visto um homem daqueles. O nosso mutireiro era bom de foice que dava gosto, naqueles cipós tripa de galinha ele dava um golpe em baixo, outro em cima e mais um no meio caindo dois pedaços no chão. Coisas de peões para provocar o outro, sem que precisasse dizer que é bom foiceiro. kkkkkkkkkkkkkkk. Vendo isso o visitante admirou: O senhor é bom de foice mesmo kkkkkkkkkkkkkk. Gostei do amigo! Sabem o que o visitante fez? Deu também dois golpes noutro cipó maior ainda. Antes deste cair no chão deu-lhe mais dois golpes certeiros no cipó fazendo-o cair em três pedaços antes de bater no chão. O patrão ficou abismado de ver um negocio daquele! Puxa vida! O senhor é mais ligeiro do que um raio, comentou! kkkkkkkkkkkkkkkk.  Ainda não perdi o jeito amigo, replicou o estranho! Estavam tão entretidos que o nosso patrão nem viu o tempo passar. Olhou no relógio já passava do meio dia. Assustou até! Vamos que já está passando do horário do almoço. Vá indo disse o companheiro, enquanto o senhor ajeita a mesa lá em casa, eu fico mais um bocadinho. A hora que estiver pronta o senhor me dá um grito. Ou venha até aqui para irmos juntos. Lá se foi o mutireiro. Chegando em casa já a mesa estava posta, a esposa disse-lhe: Cadê o companheiro? Já está fria a comida de tanto esperar vocês. Este voltou em cima do rastro para trazer o amigo desconhecido. Chegando não acertou com o lugar onde havia deixado sua foice fincada, ficou perdido sem saber onde havia deixado a ferramenta. Apurou os ouvidos para escutar onde estava o companheiro pelo barulhos das foiçadas, mal ouviu, mas longe dali, deu um grito: O homem ouviu e respondeu, seguiu naquela direção encontrando-o. Foram procurar sua foice, nossa como estava longe dali, acharam-na, ficou admirado do tanto que seu companheiro havia roçado sozinho. Já basta amigo! Vamos embora almoçar e não precisaremos voltar mais aqui hoje. A tarefa para mais de vinte homens, foi feita por nós dois.  Acho que enquanto eu fui em casa o senhor ultrapassou a medida deste roçado. kkkkkkkkkkkkkkkkk. Nem precisava mais. É que eu acertei o "Eito" roçando mais uma beiradinha para não ficar desparelho disse o bom foiceiro, o visitante inesperado! Nossa como o senhor é bom! Nunca ví igual! Que nada responde o amigo! Gente boa tem para todos os lados! Chegaram os dois, lavaram as mãos e sentaram á mesa. Coma a vontade amigo! Arroz e feijão cozidos ninguém planta e não nascem mais kkkkkkkkkkk. O estranho não usou de cerimônia, foi comendo tudo o que tinha pela frente, para começar ele não quis o prato,  pegando uma baciazinha que continha farofa de miúdos do bezerro, cabrito, leitão, perus e frangos e foi adicionando feijão arroz e o que tinha na mesa. O dono da casa espantou vendo ele fazer aquilo, mas fingiu nada ver. Ficou abismado! Pensou consigo: Hoje é sexta-feira e dia de surpresas! Já ví duas com essa, pensou! Bom será se não houver outra! Pediu licença e levantou da mesa dizendo: Sinta-se a vontade amigo, quase não comi porque ainda estava cheio. Mas não foi isso, estava assombrado vendo o homem comer aquilo tudo. O homem sozinho comeu por toda a turma que viria! Foi na cozinha disfarçando seu temor, comentou baixinho com a esposa: Isso é coisa do outro mundo! Porque não é possível um negocio destes! Esperou ele terminar de almoçar, recolheu as vasilhas, todas sem um caroço de nada! Limpou tudo! Nossa! Meu Deus o que é isso? Pensaram a esposa e o marido. Foi na dispensa e trouxe um prato de doce e algumas rapaduras dizendo: Isto é para o senhor endoçar a boca amigo. Espero que goste! O homem agradeceu e comeu tudo, pediu mais doce! A esposa dele foi na dispensa e trouxe mais uma 20 rapaduras e os doces que lá havia, provando que eles não eram mesquinhos, ali tinha fartura de tudo. Pois não é que o homem comeu tudo de novo? Virgem Maria, disse a dona da casa! Nunca vi uma coisa dessas! Nesta altura e ouvindo isso, o homem deu um salto da cadeira, que até balançou a mesa. Tirou o chapéu de palha da cabeça, mostrando os dois chifres, deu um estouro, e sumiu deixando uma catinga de enxofre na casa do homem e sua esposa que caíram no chão vendo aquela aparição do Demônio. Nunca mais fizeram Mutirão naquela região!

ISTO SÃO OS "CAUSOS" QUE OS CABOCLOS CONTAM UNS PARA OS OUTROS!

ESTE É O NOSSO BLOGGER: "COISAS DE CABOCLO DE LUIZÃO-O-CHAVES"
ANASTACIO, MS 11/05/2016.


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